domingo, 23 de março de 2014

A vida não é assim tão previsível.

  A história é sobre uma garota. Aliás, o ponto de partida é uma garota, pois nunca se sabe aonde o desenrolar dos fatos irá levar. Se é que há destino. Começa assim: ela desce lances de escada, ligeira, descabelada, com mochila nas costas e casaco por cima da blusa cinza amarrotada. As escadas são de um prédio antigo, daquelas que têm corrimão largo, feito de concreto, e o piso em vermelho. Mora ali há uns seis meses e espera, enfim, parar de se mudar, indo e vindo apenas entre vidas tristes e trabalhosas. Quer descansar.
...
  Sentou-se ali superficialmente alheia em relação ao mundo; isso porque, profundamente, nunca se desligava dele. O que faltava era mais dinheiro ou mais coragem? Na ausência dos dois, pelo menos não precisava responder. E, assim, ia acumulando dúvidas sem culpa, já que a vida mesmo se recusara a dar chances de respondê-las. Sim, não lhe parece ter feito sua vida, esta foi se fazendo sozinha, impondo-lhe caminhos que obrigaram apenas a lutar para permanecer ali, viva.
  E por que agora não se sentia confortável em assumir isto, que estava plenamente viva? É perigoso e assustador admitir, mas é fato quase certo que só a essa altura de sua existência percebeu que estar viva não é só respirar com o mínimo conforto. Agora, que pela primeira vez em tantos anos consegue experimentar a tranquilidade básica de que parte a vida de qualquer um, nota que sonhos existem para além das necessidades. E os dela são tão dispersos, estranhos, perturbadores, porque, até então, não havia lugar para eles, não passavam de uma provável utopia de uma vida vizinha.
  Já pode sonhar, e essa possibilidade veio quase instantaneamente com os sonhos em si. Mas já pode realizá-los? Como arriscar o básico alguém que há tão pouco o tem?
  Meu Deus, me ensina o que é viver, me ensina o que é Você, não me deixe ser só mais uma doida que fala sozinha e almeja o impossível só porque sabe que ele não corre o risco de acontecer.
  No escuro, dormiu. Algo mais como: a fase de muito se esforçar para não pensar e, então, dormir.

Trilha: Gente sente tudo, gente tem que se envolver.

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Gentileza faz tão bem.